Investir em vinhos pode ser mais rentável do que títulos públicos americanos

Por The New York Times , por Paul Sullivan |

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Com rendimento anual de 4,1%, os premier cru de Bordeaux vêm se mostrando um negócio melhor do que arte, ainda que a safra não seja das melhores

Dean Cox/The New York Times
Colecionadores de grandes vinho de Bordeaux, como o Petrus, fizeram um bom negócio ao longo do século passado

Muitas pessoas que colecionam vinhos finos falam a seu respeito como um investimento, mas será que algo que combina muito bem com costeleta de carneiro pode ser um investimento – ou apenas uma forma de justificar o pagamento de dezenas de milhares de dólares numa única garrafa? Quem comprou dos cinco maiores produtores de Bordeaux, na França, conhecidos como "premier cru", nesse último século, deu um passo financeiro inteligente, além de poder agradar o paladar.

Estudo de três professores de finanças constatou que os vinhos dessas vinícolas – Haut-Brion, Lafite-Rothschild, Latour, Margaux e Mouton-Rothschild – tiveram lucros anuais entre 1900 e 2012 superiores aos títulos públicos, embora tenham ficado atrás das ações. A taxa de rendimento real de 5,3 % cai para 4,1% depois de ser ajustada em função de seguro e custos de armazenamento. O rendimento foi melhor do que o de outros artigos colecionáveis, como belas-artes e selos.

É uma boa notícia para os muitos colecionadores de vinho que existem por aí. Segundo o estudo Vislumbres da Riqueza e do Valor, do U.S. Trust, 13% das famílias com alto patrimônio líquido nos Estados Unidos colecionam vinhos finos. Desse grupo, 49% afirmaram ver o vinho como um investimento; o resto pretendia bebê-lo.

Porém, mais do que uma afirmação de que os grandes vinhos valorizam enquanto envelhecem e se tornam mais escassos, o estudo constatou algo singular. O rosé de boas safras acumula valor rapidamente durante as duas primeiras décadas, o que pode ser esperado, mas vinhos de safras medíocres ou até ruins, começaram a alcançar os de má qualidade passados 50 anos.

Durante os primeiros 25 anos, as boas safras eram perto de 3% mais caras do que as inferiores por ano de idade. A diferença de preço começa a estreitar ao redor dos 50 anos. "Existe um grau de convergência porque as garrafas de vinho com cem anos raramente são bebidas", afirmou Elroy Dimson, codiretor do Centro de Gestão de Ativos da Escola de Negócios Judge, da Universidade de Cambridge, e um dos autores do estudo. "Mas eles ficam muito bem em exposição."

Ter uma ilha para chamar de sua é nova moda entre milionários. Veja algumas possibilidades na galeria abaixo:

Rangyai, uma das ilhas mais caras à venda, fica na Tailândia, a apenas 20 minutos do aeroporto internacional de Phuket. Preço: US$ 160 milhões . Foto: Reprodução Private Island OnlineNo continente asiático, a Kum Yai, na Tailândia, é uma ilha desabitada, com fontes naturais e córrego de água doce que corta todo o arquipélago. Preço sob consulta. Foto: Private Island OnlineAcessível apenas por barco ou avião, a James Island, em British Columbia, no Canadá, tem praias de areia branca, dunas gramadas e ecologia diversificada. Preço sob consulta  . Foto: Private Island OnlineA ilha James Island tem ainda uma residência toda equipada, inclusive com campo de golfe . Foto: Private Island OnlineA Wallis Island Estate fica a 300 quilômetros de Sydney, na Austrália, e tem até uma espécie de castelo cercado de lagoas e vegetação nativa. Preço sob consulta. Foto: Private Island OnlineNa Itália, destaque para a Ilha Isola Marinella, na Costa Esmeralda, na Sardenha, com suas águas cristalinas e praias de areia branca. Preço sob consulta . Foto: Private Island OnlineCercada também por rios, a Little Hawkins Island, na Georgia (EUA), tem acesso terrestre e infraestrutura completa ao preço de US$ 20 milhões . Foto: Private Island OnlineA estrutura da Little Hawkins Island é composta de uma residência em estilo colonial espanhol e duas casas de hóspedes, totalmente mobiliadas e decoradas . Foto: Private Island OnlineA Kings Island é uma ilha artificial na Dinamarca, situada a apenas 15 minutos da costa de Copenhague. Possui até uma fortaleza com 200 quartos. Preço: US$ 12,3 milhões . Foto: Private Island OnlineEm território caribenho, a Big Grand Cay, nas Bahamas, tem uma residência espaçosa com cinco quartos, em uma paisagem de tirar o fôlego. Preço: US$ 11,5 milhões . Foto: Private Island OnlineNo Caribe, a Hassel Island Estate, nas Ilhas Virgens, tem vegetação preservada e completa infraestrutura com heliponto, ao custo de US$ 7,6 milhões . Foto: Private Island OnlineA Hassel Island possui três residências, totalizando cerca de 15 mil m², totalmente reformadas, para conforto dos futuros moradores . Foto: Private Island OnlineAreia branca e água cristalina cheia de corais marcam a Ilha Bandaa Dhidhoo, nas Maldivas, a 600 quilômetros de Sri Lanka, no Oceano Índico. Preço: US$ 7,4 milhões . Foto: Private Island OnlineNo Pacífico Sul, a Ilha Rai Wi Wai Estate, em Fiji, tem cinco quilômetros de paisagens de tirar o fôlego e propriedade totalmente equipada pelo valor de US$ 6,9 milhões . Foto: Reprodução Private Island OnlineA Twichell Island, na Flórida (EUA), fica pertinho de outros arquipélagos, a 40 minutos do Aeroporto Internacional de Palm Beach. Preço: US$ 5,9 milhões . Foto: Private Island OnlineA confortável residência da Twichell Island vem totalmente mobiliada, com uma bela vista para o Oceano Atlântico . Foto: Private Island OnlineBoas para pesca e cercadas de montanhas rochosas, as Ilhas Majagual e Maje, localizadas a meia hora de helicóptero da Cidade do Panamá, valem US$ 4,2 milhões . Foto: Private Island OnlineÁguas azuis quentinhas cercam a luxuosa residência da ilha Portofino Caye, localizada em Belize, na América Central . Foto: Private Island OnlineO arquipélago Portofino Caye tem mais de 30 mil m² e sai pelo valor de US$ 3,5 milhões . Foto: Private Island OnlineA Ilha Paraty, no Rio de Janeiro, tem 40 mil m² de área, com praias paradisíacas e vegetação preservada, além de infraestrutura residencial por US$ 9,9 milhões . Foto: Reprodução Private Island OnlineA rústica Ilha do Magalhães, em Florianópolis, é circundada pela Baía dos Golfinhos e conta também com praia privativa. Preço: US$ 2,2 milhões . Foto: Private Island OnlineNo Brasil, a Ilha do Gato, em Camamu, na Bahia, tem área praticamente intocada, com areias brancas, águas cristalinas e cercada de vegetação nativa. Preço: US$ 3,3 milhões . Foto: Private Island OnlineA Watch Island, localizada em Clayton, no Estado de Nova York (EUA), custa US$ 1,9 milhão e já possui residência com toda infraestrutura . Foto: Private Island OnlineApesar de ser no Alasca, a Bart Island conta com residência totalmente equipada e climatizada, para ninguém passar frio, ao custo de US$ 1,8 milhão . Foto: Reprodução Private Island OnlineA rústica Pink Pearl Island, localizada na Nicarágua, é cercada por praias de areia branca e água azul-turquesa. Preço: US$ 500 mil . Foto: Private Island OnlineChandler Island, em Maine, a 230 quilômetros de barco de Boston (EUA), é uma das ilhas mais baratas à venda e pode ser comprada por US$ 40 mil  . Foto: Reprodução Private Island OnlineUma das pechinchas encontradas, a ilha de Mink Lake, localizada na região de Nova Scotia, no Canadá, tem acesso terrestre e custa US$ 18,7 mil . Foto: Reprodução Vladi Private Island

Outro motivo para a convergência de preço é a maior escassez de safra ruim do que da boa, descobriram Dimson e seus coautores, Peter L. Rousseau, da Universidade Vanderbilt, e Christophe Spaenjers, da Escola de Altos Estudos Comerciais (HEC), Paris. "Supondo que foi uma safra de qualidade ruim, as pessoas tiveram o bom senso de bebê-la antes que virasse vinagre", disse Dimson. "Entretanto, quem quer uma corrida vertical de safras, pode pagar mais do que deveria por aquele que necessita."

Corinne Mentzelopoulos, proprietária do Château Margaux, declarou que a constatação fazia sentido. "À medida que os vinhos envelhecem, talvez depois de 40 ou 50 anos, as pessoas têm a tendência de esquecer sobre a safra. Não sei muito bem a qualidade do Margaux de 1902 ou 1904, mas se eu encontrasse uma garrafa que parecesse verdadeira, eu a compraria para a adega."

Dimson afirmou que o estudo foi baseado nos preços de leilões de vinhos vendidos pela Christie's e nos preços de varejo da Berry Bros. & Rudd, loja de vinhos centenária de Londres. Não adiantou utilizar a pontuação altamente conceituada criada pelo crítico de vinho Robert Parker, porque ela não existia durante a maior parte do período estudado.

Divulgação
A obra "Paredes com Incisões a la Fontana II", de Adriana Varejão, foi leiloada por R$ 2,97 mi

Uma crítica ao estudo é a de que ele se concentrou somente nos principais produtores de Bordeaux e não em outras ótimas regiões viníferas da França ou, por sinal, Itália ou Califórnia. Todavia, o estudo observou que 80% dos fundos de vinho investiam em oito tintos de Bordeaux. Dito isso, os pesquisadores escreveram que o rendimento dos cinco “premier cru” provavelmente se encontraria no topo da escala dos vinhos em geral.

Como qualquer relatório de investimentos, o desempenho passado não é garantia de rendimentos futuros. Bolhas podem se formar no mercado vinícola, como aconteceu depois da crise financeira, quando compradores chineses começaram a adquirir Bordeaux. "Eles não se preocupavam muito com a safra, mas a condição do rótulo e da marca", disse David Sokolin, diretor-presidente da Sokolin, loja de vinho já na terceira geração em Nova York e autor de um livro sobre o vinho enquanto investimento. "Nós vimos os principais fabricantes subirem o preço a níveis sem precedentes."

Segundo Sokolin, a safra 2008 do Château Lafite-Rothschild, lançado antecipadamente porque não era considerada ótima, demonstrou o poder dos compradores chineses endinheirados. No caso desse vinho cujo preço original não estava na casa de centenas de dólares, a garrafa aumentou dez vezes, de forma que, no auge da bolha, uma unidade era vendida pelo valor do engradado de 12 da época de lançamento. Por quê? "Oito é o número da sorte na Ásia. Ninguém teria imaginado que no ponto mais fundo da recessão global a Ásia tiraria o mercado de vinho do buraco".

Muitos fabricantes têm um segundo vinho que é bom, mas não no mesmo nível do principal, o que o torna consideravelmente mais barato. De acordo com Sokolin, os compradores asiáticos elevaram o preço do Carruades de Lafite-Rothschild, segunda linha da marca, para US$ 300, contra os menos de US$ 100 iniciais. "Era a maneira mais barata para asiáticos obcecados por Lafite colocarem as mãos num rótulo com essa marca."

Contudo, só porque Bordeaux dominou a coleção e o investimento em vinhos há séculos não quer dizer que as outras regiões não estejam ganhando terreno. O comércio total de vinhos italianos subiu de 1% no final de 2006 para 6% no fim de 2013 no índice Liv-ex 100 de vinhos finos.

Giovanni Geddes de la Filicaja, CEO do grupo Frescobaldi, que produz dois vinhos toscanos de primeira linha, Masseto e Ornellaia, observou que o segundo supera o Bordeaux intenso no Liv-ex 100 desde setembro 2011. Seu desempenho acompanha os mais refinados desde o final de 2008; a exceção é o Lafite, que derrotou a todos. "Existe mercado para vinhos finos de outras regiões do mundo", afirmou Geddes de la Filicaja. "Investir não é o principal motivo para se comprar vinho italiano, mas está passando a ser um fator."

Sokolin garantiu que essa é uma boa época para investidores de vinho porque o Liv-ex 100 ainda estava abaixo do pico de 365 pontos de junho de 2011; o índice gira ao redor de 240. "Digo que agora é um ponto inicial. Os preços recuaram e existe uma base de consumidores em expansão nos mercados emergentes.”

Porém, apesar da demanda aumentada para ótimos vinhos da Itália e Borgonha, na França, Sokolin continua apostando em Bordeaux. "O que torna o Bordeaux um investimento incrível em vinho é existir um histórico antigo e uniforme entre os 20 maiores produtores. Não sei dizer se o Google continuará sendo o maior mecanismo de busca daqui a 30 anos ou se esse tipo de coisa ainda vai existir, mas uma coisa que se sabe é que não existirão mais Latours 1990."

Existe outro fator em jogo: a grande oferta. "Bordeaux é o único vinho no mundo capaz de oferecer excelência e quantidade", disse Mentzelopoulos. "Se você quiser comprar um Margaux 1982 amanhã, dá para encontrar. Outros vinhos são baseados na escassez", ela mencionou, antes de citar dois californianos famosos. "Se você quiser ter um Screaming Eagle ou um Harlan Estates de 2005, não sei se o achará com tanta facilidade." A disponibilidade é, por certo, relativa. O Margaux 1982 custaria perto de US$ 1.100.

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