Vinho: a nova aventura da família Bulgari

Após vender o controle da marca de joias ao grupo LVHM, Paolo Bulgari se arrisca a fazer vinhos nobres na Toscana

Elisabetta Povoledo, The New York Times |

NYT/The New York Times
Giovanni Bulgari nos vinhedos da família, na Toscana
Há muito tempo o nome Bulgari está associado às joias de luxo usadas por algumas das celebridades mais famosas do mundo, como Elizabeth Taylor e Julianne Moore. Porém, será que ele significa alguma coisa no mundo do vinho? A família Bulgari não sabe, mas logo vai saber. Um novo empreendimento vinícola de dois membros da dinastia de joias e relógios Bulgari, Paolo e Giovanni Bulgari, lançaram em março seus três primeiros vinhos na Vinitaly, feira internacional do vinho realizada em Verona, Itália.

Feitos na fazenda PoderNuovo, de propriedade da família, na porção sul da Toscana, os vinhos são os primeiros frutos da empresa criada pelo ex-presidente do Bulgari Group, Paolo Bulgari, e seu filho desde que a família vendeu o controle da companhia de joias por meio de uma troca de ações com o conglomerado francês de artigos de luxo LVMH, em março de 2011.

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É difícil impressionar no mundo do vinho. Ele é muito competitivo e conta com muitas marcas de produtores veneráveis como Tignanello, produzido por Antinori, ou os vinhos Sassicaia da Tenuta San Guido. Contudo, isso não impediu muitas celebridades, como o golfista Greg Norman e a atriz Drew Barrymore, de entrar no ramo.

O histórico da família está sendo atenuado na garrafa, em parte por causa das regras estabelecidas pela antiga empresa, que restringe como o nome Bulgari pode ser usado em outros negócios.

O rótulo PoderNuovo é um desenho simples de vinhedos cor de sangue estilizados sobre um pano de fundo branco, com os nomes de Paolo e Giovanni em discretas letras cinza claro, logo abaixo. Dos três vinhos, somente o Sotirio, batizado em homenagem ao fundador grego da dinastia Bulgari, é uma referência direta ao passado ilustre da família.

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“Nossa primeira batalha não é sermos conhecidos como o vinho Bulgari”, disse Giovanni Bulgari, 36 anos, CEO da PoderNuovo, durante uma entrevista na aconchegante área de jantar da fazenda, que agora é seu lar em meio expediente. Segundo afirmou, ele e o pai temiam que o vinho fosse visto como a brincadeira de um ricaço ou um desdobramento agrícola da Bulgari, mais conhecida por joias, relógios, perfumes e outros acessórios. “O verdadeiro desafio é mostrar que sabemos produzir um bom vinho.”

Dave Yoder/ The New York Times
Barris de carvalho na adega da família: vinho envelhecido com cuidado
Isso não quer dizer que manusear joias durante anos não tenha afetado como a Bulgari encara a produção vinícola. “Meu pai me ensinou a manusear pedras, a segurá-las nas mãos sem olhá-las para ter uma noção da temperatura e depois observar como a luz interage com elas.” O vinho também pediu uma perspectiva intuitiva: “como ele reage à luz, como a cor se move numa taça”.

Segundo Bulgari, por ora, a sorte e a natureza estão do seu lado. Os 17 hectares de vinhedos na PoderNuovo foram plantados em 2007. O terreno é rico em argila, areia e carvão em proporções diferentes, uma boa combinação para variedades distintas de uvas. Os Bulgari também recorreram a um dos enólogos mais conhecidos da Itália, Riccardo Cotarella, para colocar sua marca em vinhos de 2009 que chegam ao mercado: um cabernet franc e um sangiovese, uva original da Itália central.

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A produção inicial está definida em 60 mil garrafas, com a meta de dobrá-la quando o vinhedo estiver em operação total. Os vinhos serão vendidos no atacado por 12 euros, 16 euros ou 20 euros, dependendo do tipo. Os importadores e distribuidores definirão o preço de varejo.

A família não tem ilusões de que o sucesso passado num campo garantirá o êxito em outro. “É um mercado bem cheio e estamos num momento difícil para vender qualquer coisa, de vinho a carros. A competição é muito dura”, reconheceu Paolo Bulgari, que mesmo assim se disse otimista. “Agora teremos de lançar e vender.”

Dave Yoder/ The New York Times
Trabalhadores cuidam dos vinhedos da família Bulgari
A família ainda precisa definir distribuidores e importadores, embora possa ter uma ajuda da LVMH, que vende nove tipos de vinhos de nicho, champanhes e bebidas, e de cuja diretoria Paolo Bulgari faz parte.
“No total, o mercado internacional tem espaço para o crescimento de quem oferecer bons produtos, a bom custo”, disse Andrea Rea, que supervisiona o Observatório do Mercado de Vinho, da Universidade Bocconi, Milão. Porém, ele acrescentou que o setor está sofrendo um “estrangulamento no âmbito da distribuição”, que dificulta a exportação de vinho, ainda mais num mercado lotado como a Itália.

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Mercado invadido por celebridades
As empresas iniciantes enfrentam a maior dificuldade e quem ambiciona ocupar uma fatia do mercado de luxo pode descobrir que as barreiras econômicas são especialmente altas, avaliou Rea. “Não existe mais caminho fácil”, afirmou John Gillespie, sócio da Wine Colleagues, consultoria de vinho de St. Helena, Califórnia, para quem o mercado estava abarrotado com ofertas de celebridades. “Parece que todo golfista e roqueiro tem seu vinho particular. Até seriados dramáticos noturnos populares estão avaliando o lançamento de marcas próprias.” Dada a concorrência, “é preciso ter algum diferencial para influenciar o mercado”, declarou Gillespie.

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A família Bugari irá disputar mercado com Cavalli e Ferragamo no mundo do vinho
O nome Bulgari pode ser uma vantagem se o vinho PoderNuovo ficar claramente associado à marca de luxo. “Depende do público-alvo. Quando digo ‘Bulgari’ para algumas mulheres que conheço, se acende uma luz e elas falam que estão interessadas.”

Os Bulgari se juntaram a outras famílias famosas do mundo das marcas de luxo, como os Cavalli e os Ferragamo, que estão tentando produzir vinho. Quando Tommaso Cavalli, filho do designer Roberto Cavalli, começou a vender vinhos em 2004, as garrafas vinham marcadas com a famosa estampa da marca de roupas. Contudo, Cavalli disse que sempre quis impressionar os conhecedores de vinho, não os fãs de moda. Os rótulos das últimas safras não têm mais ligação evidente com a marca de roupas, embora Roberto Cavalli tenha desenhado o novo logotipo.

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“Sei que tenho um nome importante me apoiando, mas o vinhedo é coisa minha”, Tommaso Cavalli garantiu durante entrevista telefônica. “O mundo culturalmente conservador do vinho costuma desconfiar de um nome que faz sucesso em outros lugares. Minha esperança é de que ao longo do tempo o mundo reconheça a autenticidade do nosso projeto.”

Numa manhã recente na propriedade Bulgari, estava sendo construída uma adega de alta tecnologia. Giovanni Bulgari não revelou o tamanho do investimento no projeto vinícola, dizendo apenas que, no geral, o dinheiro injetado em vinhos costuma demorar a se pagar.

“Geralmente leva uns dez anos, menos se coisas derem certo, mais, se não”, ele disse. Contudo, depois de lidar com o luxo durante a vida inteira, os Bulgari estão descobrindo que a palavra pode estar associada a outras coisas além de pedras preciosas e relógios. Morar no interior, onde Palazzone, a cidade mais próxima, conta com apenas 500 habitantes, é um grande luxo em si, afirmou Giovanni Bulgari. “A qualidade de vida é muito alta.”


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