
Especiarias, base da tradicionalíssima cozinha indiana
Sempre que se realiza um evento como o Madri Fusión, o mais importante troca-troca de informações entre chefs de boa parte do mundo, surge um frenesi para tentar adivinhar o que o futuro imediato reserva ao gesto de levar o garfo à boca. Ou os dedos, já que comer com as mãos – tapas, sushis, espetinhos – se tornou algo tão “moderno”. Mas vale a pena discutir o que vamos encarar nos pratos daqui a alguns meses ou anos?
O hambúrguer que os parisienses estão adorando, do Le Camion qui Fume
Bem, não deixa de ser um exercício interessante, mas o que temos lido a respeito sempre remete a algo que já existe. Tem coisa nova, sem dúvida, mas muito mais relacionada à prática do fazer/refazer ou à redescoberta de ingredientes. O último Madri Fusión, por exemplo, realizado no mês passado, “descobriu” a comida da Coréia do Sul, sobretudo com suas pimentas endiabradas e em Paris, atualmente, os jovens estão encantados com a chegada de um food truck igual aos que fazem sucesso pelas cidades dos Estados Unidos desde 2009.
Virou febre acessar o site Le Camion qui Fume, da jovem chef californiana Kristin Frederick, para saber onde seu caminhãozinho vai estar naquele dia. Ela achou esse jeito engenhoso de pagar seus estudos na École Supérieure de Cuisine Française Ferrandi e oferece os clássicos hambúrgueres americanos – o mais vendido é o que leva cheddar – mas como não é boba faz uma concessão francesa ao Bleu, com o delicioso queijo Fourme d’Ambert.
Então, a prática de servir virou a novidade e pode virar mania, claro, com outros jovens chefs quatro-rodas fritando seus discos de carne em várias cidades, mas a base da comida é a mesma de sempre. A jornalista Alessandra Blanco, em seu blog Comidinhas aqui no iG, falou a respeito das tendências para 2012 e se divertiu ao mencionar que “os americanos descobriram o milagre dos salgadinhos!” Que estão há décadas em nossos bares, emendou.
Tapas espanholas: lugar garantido nas mesas pelas próximas temporadas
Vira e mexe há sempre a esperança de querer antecipar o que vamos digerir mais à frente. O que parece certo é que o mundo dos foodies ficou órfão de Ferran Adrià e não se contenta com as imitações do mestre da cozinha molecular. O que restou é a moda ainda duradoura das tapas espanholas e a inabalável influência da cozinha asiática – japonesa, principalmente. Mas o estreladíssimo chef Joël Robuchon, oráculo francês da gastronomia, que credita o sucesso de seu L´Atelier justamente à releitura de tapas e sushis, afirmou recentemente à revista espanhola Gastronostrum que “a cozinha do futuro é a indiana, com o uso de suas especiarias, combinações, medidas e sabores”. Como assim: a milenar culinária da Índia é o amanhã em nossos pratos?
A comida indiana: sabores e aromas eternos
Como se vê, descobrir o futuro continua a ser uma das grandes aspirações do ser humano. Mas a fome não espera, o que fazer? Continuo achando que a perfeita tradução daquilo que ansiamos à mesa é a expressão comfort food. A comida que conforta não apenas o paladar, mas o coração e a alma. Em qualquer tempo.
Serviço:
Le Camion qui Fume
Joël Robuchon
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Mauro Marcelo - canalluxo@ig.com.br - É jornalista, crítico gastronômico, escritor e chef de cozinha. Especialista em vinhos, foi também editor do Guia 4 Rodas e da revista Gula