
Angelo Gaja veio novamente a São Paulo, incansável em seus 71 anos, para comemorar 50 anos de atividade ininterrupta junto aos vinhedos, aos tanques de fermentação e à lenta espera pela maturidade dos vinhos. Seu entusiasmo só cresce, na mesma medida de sua aura como o mais incensado vinicultor italiano. Enquanto me preparo para nova entrevista com ele penso com saudade em um certo domingo de maio, há exatos 15 anos.
Leia a entrevista: Angelo Gaja, deus do vinho
Angelo Gaja em Barbaresco, antes do almoço em maio de 1996. E em abril de 2011, no restaurante Dalva & Dito, de São Paulo
Eu havia chegado em Barbaresco pela manhã. Hesitei antes de ligar, por causa do dia clássico de descanso, mas os contatos prévios feitos no Brasil me autorizavam a isso. Gaja atendeu o telefone, perguntou onde eu estava e dali a 20 minutos chegou ao hotel, me levando até seu escritório, na vinícola bem no coração da velha cidade.
Conversamos um bom tempo, ele me mostrou as instalações onde algumas de suas maravilhas rubras dormitavam nas barricas de carvalho. No pátio, apontou-me pilhas de carvalho, explicando que as deixava ali ao relento, por 2 ou 3 anos, até ficarem perfeitamente secas. Do pátio, me mostrou sua casa, na colina. Eu estava feliz com o privilégio, mas também um pouco constrangido: revelou que havia chegado do Japão poucas horas antes. Estava cansado, naturalmente, mas a alegria ao falar de seus vinhos era igualmente visível.
Quando me preparava para despedir, ele fez o convite para que fosse almoçar em sua casa. Quase não acreditei, ainda mais porque nem o conhecia pessoalmente, ainda. Subimos entre os vinhedos até o alto da colina. Lá, sua família esperava: a esposa Lucia, as filhas Gaia, Rossana e o caçulinha Giovanni.
A casa de Gaja, na colina. Em primeiro plano, o carvalho descansa antes de virar tonel
A primeira impressão ficou bem gravada em minha memória: Gaja abriu seu belo chardonnay Rossj-Bass e enquanto eu esperava ávido com a taça no mão, ele o despejou inteiro em uma peça de porcelana cheia de morangos. Prendi a respiração. Os vermelhinhos iriam ficar ali até a hora da sobremesa. Tive inveja deles.
A próxima garrafa veio à taça e com ela o início de uma jornada alegre, em que seus melhores vinhos eram abertos à tavola para o almoço que eles mesmos prepararam: alguns antipastos, a salada, a massa ao molho de cogumelos, o assado de cordeiro. Angelo Gaja e sua esposa iam e vinham da cozinha, as filhas ajudando a tirar os pratos – não havia uma só empregada por perto. Os pratos salgados chegaram gloriosamente ao fim e então os morangos, embriagados pelo chardonnay, foram servidos. Deliciosos.
O cunhado de Angelo, gaiato como só um romano autêntico sabe ser, estava na casa naquele dia e não parava de desdenhar: “Não aguento mais tomar esses vinhos...” E soltava uma gargalhada monumental. Enquanto isso, eu me constrangia mais uma vez: toda a família foi para a cozinha lavar panelas, pratos e talheres. O magnífico vinhateiro, chamado por várias publicações de “rei do vinho do Piemonte e dos vinhos de toda a Itália”, lavando a louça! Ofereci ajuda, mas ele foi, novamente, um nobre: disse que estava em sua casa e que deveria ficar quietinho no sofá, tomando, àquela altura, o seu espetacular Sorì San Lorenzo. Que vinho!
Mais tarde, ao sair, parei um instante diante da casa, mirei os vinhedos, contemplei Barbaresco e acenei para a família Gaja. Estava feliz como um morango bêbado.
Entrada acolhedora da casa da família Gaja
Mauro Marcelo - canalluxo@ig.com.br - É jornalista, crítico gastronômico, escritor e chef de cozinha. Especialista em vinhos, foi também editor do Guia 4 Rodas e da revista Gula