Design ou arte?

Idealizador do primeiro salão de design-arte do Brasil, Waldick Jatobá discute as fronteiras entre os dois conceitos

Juliana Bianchi e Lívia Alves, iG São Paulo |

David Santos Junior/Fotoarena
Waldick Jatobá: "Nosso objetivo é movimentar uma onda de informação em torno do design"
Colecionador de arte desde adolescente, o economista baiano Waldick Jatobá viu seu interesse por design crescer em 2000, quando se mudou para São Paulo. “A capital paulistana sofre muita influência do mobiliário vintage, com peças de Sergio Rodrigues e Joaquim Tenreiro. Essa força me incentivou a começar uma coleção que acabou migrando para o contemporâneo com os irmãos Campana, dos quais me tornei grande amigo”, diz Jatobá.

A paixão pelas peças – que ainda não ultrapassam a quantidade de obras de arte que tem em casa – foi o ponto de partida para criar o primeiro salão de design high-end (isto é, muito mais próximo da arte do que do simples utilitário) do Brasil, o Salão Design São Paulo.

O evento, que acontece entre os dias 15 e 19 de junho na Oca, no Parque do Ibirapuera, contará com exposições, palestras, workshops, seminários e mesas redondas com designers de renome como Fernando e Humberto Campana, Ingo Maurer e Gijs Bakker.

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David Santos Junior/Fotoarena
Waldick Jatobá e uma das peças de sua coleção. A obra, em barro, foi presente de aniversário dos irmãos Campana
iG: A ideia de criar um salão de design-arte no Brasil existe há quatro anos, mas há apenas um ano e meio começou a tomar corpo de fato. Qual foi a dificuldade?
Waldick Jatobá:
Há quatro anos, por mais que o mercado brasileiro estivesse desenvolvido ainda não existia maturidade para entender o que era um salão de design conceitual. As pessoas não entendiam o que estávamos falando e achavam tudo uma loucura. Mas hoje o design é o que a moda era há 10 anos, onde tudo era moda. Agora, tudo é design.

iG: A primeira edição do Salão Design São Paulo homenageará os irmãos Campana. Por que a escolha?
Jatobá:
O conceito de designer do ano é eleger uma pessoa pela contribuição que ela dá naquele ramo do design, mas confesso que esta escolha foi por total gratidão e amizade. Eu adoro a Lina Bo Bardi, mas não a colocaria como designer do ano porque não gosto de homenagear morto. O mais bacana é poder compartilhar aquele momento com a pessoa.

iG: Como foi pensada a programação do Salão?
Jatobá: Queríamos fazer algo diferente, que surpreendesse o público, que democratizasse a informação ao mesmo tempo em que trabalhasse a exclusividade do design. Assim, além de termos um lado comercial, onde 20 galerias vão apresentar suas peças de design-arte, teremos também espaço reservado para a educação. Serão seminários, workshops e mesas redondas que ajudarão a formar um novo olhar, um novo consumidor e produtor. Nosso objetivo é movimentar uma onda de informação com temas como design-arte, gestão do design e vertentes do design.

iG: A São Paulo Fashion Week ajudou a divulgar e profissionalizar a moda no Brasil. Você acha que esse projeto seguirá o mesmo caminho?
Jatobá
: Sim. Queremos mostrar para existem novos designers competentes e talentosos no Brasil e que não é mais preciso copiar de lá de fora.

iG: O design está cada vez mais próximo da arte. Qual a fronteira desses dois universos?
Jatobá:
Uma peça, para ser design ou design-arte precisa ter função, precisa ter passado por um processo de elaboração, onde se agrega conceito. Não se pode sentar ou comer em cima de uma obra de arte. Por isso (na casa de um colecionador ou em uma situação em que os dois conceitos se misturem) é importante conhecer bem o artista para saber se a peça se trata de uma escultura ou design antes de cometer uma gafe.

iG: A arte consegue traduzir um momento histórico, passar uma informação. O design também?
Jatobá:
No design, existem identidades que mostram o momento em função do material que é utilizado. Por exemplo, ao olhar uma cadeira com palhinha é possível visualizar os anos 50, época em que o material foi utilizado. Ao mesmo tempo, quando olha uma poltrona de bichos de pelúcia dos irmãos Campana e sabe que é contemporâneo.

Divulgação
A mesinha Ciranda é uma das peças que o estúdio OVO apresentará no Salão
iG: O design pode ser político?
Jatobá:
Claro. Todo material gráfico para panfletagem de protestos, por exemplo, tem design. E ele também pode ser informativo e social, como foi no projeto de artesanato solidário criado por Dona Ruth Cardoso, que deu aos artesões uma nova força de trabalho com a ajuda do conhecimento de designers. É isso que queremos mostrar.

iG: Sua coleção de design já ultrapassa a de arte? Quais suas peças preferidas e quais gostaria de ter?
Jatobá:
A maioria ainda é arte. Morar em apartamento me priva de ter mais peças, mas já tem muita cadeira que as pessoas têm medo de sentar, como o banco de papelão dos irmãos Campana e uma cadeira também de papelão de um designer anônimo. Gosto bastante da cadeira de bichos de pelúcia dos Campana, do banquinho do Sergio Rodrigues e da mesinha de chá do Tenreiro. Já a lista de desejos é enorme. Tem algumas peças que acho que todo mundo adoraria ter, como um vintage do Oscar Niemeyer, uma cadeira do Ron Arad ou um armário do Studio Job.

iG: Em que designers brasileiros apostaria suas fichas?
Jatobá:
São muitos, mas acredito que no Rodrigo Almeida, uma vez que ele tem nome e bagagem, e no Domingos Tótora, pela inventividade que utiliza no material e em sua criação. Também gosto bastante da forma como a Luciana Martins e Gerson de Oliveira, da OVO, trabalham com materiais sofisticados.

iG: É possível traçar uma identidade do design brasileiro?
Jatobá
: Talvez se pensarmos no material, como a madeira jacarandá utilizada desde os anos 40 e 50. Mas acredito que o design brasileiro é mais reconhecido por sua inventividade e criatividade no uso de materiais, como na utilização de garrafa pet para fazer mobiliários e objetos.







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