Turismo de experiência promete

Desenvolvimento do turismo nacional de luxo depende de melhorias na qualidade do serviço

Juliana Bianchi, iG São Paulo |

O brasileiro é um dos clientes mais exigentes do mercado de turismo de luxo. Acostumado com mordomias em seu dia a dia doméstico, com empregados e motoristas, espera sempre ter um serviço ainda melhor durante as férias no exterior. Entretanto, os turistas estrangeiros não podem esperar encontrar no Brasil a mesma qualidade que exigimos lá fora. “Temos cenários lindos, mas não é possível garantir o serviço”, afirma Tomas Perez, presidente da operadora Teresa Perez Tours.

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Romantismo, conforto e aventura em meio às reservas africanas, um dos destinos preferidos dos brasileiros
Especialista em viagens voltadas ao público mais exigente, sente dificuldade em listar mais de cinco lugares no Brasil que indicaria a possíveis clientes estrangeiros – se esse fosse seu foco de trabalho, claro. “Podemos oferecer um luxo de experiência, mas com rusticidade. É preciso sempre preparar a expectativa do cliente”, completa ele, que em junho participa pela segunda vez como palestrante da conferência do International Luxury Travel Marketing (ILTM). Apresentará a um grupo seleto de empresários do setor as tendências, particularidades e posicionamento do Brasil no segmento.

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Tomas Perez, presidente da Teresa Peres Tours
iG: Quais os destinos mais procurados pelos brasileiros atualmente?
Tomas Perez:
Antes de começarem os conflitos, Síria, Líbano e Marrocos encabeçavam a preferência. Ainda tenho clientes indo para a Líbia e Egito, mas estamos tentando reorganizar as viagens para a Indochina, Rússia ou Europa. Israel sempre foi um destino forte, principalmente com os voos diretos da El Al. O Leste Africano também é bem procurado, tanto por seus parques – que apresentam um cenário totalmente diferente de um para outro, como no Quênia e na Tanzânia, por exemplo -, quanto por suas praias, como as de Moçambique, que são totalmente diferentes das Ilhas Maurício. Na Ásia, Myanmar tem sido um destino muito bem aceito.

iG: E no futuro próximo, que lugares devem encantar o público?
Perez:
O Leste Europeu e os países escandinavos, como Noruega e Suécia ainda não têm grande volume, mas valem muito dependendo da época do ano. A sazonalidade é a primeira coisa que deve ser analisada quando se planeja uma viagem.

iG: O que diferencia o viajante de luxo brasileiro dos demais?
Perez:
O brasileiro está, naturalmente, mais acostumado a ser bem servido. Ele tem empregados em casa, o atendimento nos restaurantes daqui é, na maioria dos lugares, de primeira linha, então, quando chega ao exterior ele exige um padrão mínimo de serviço superior, ou ao menos igual, ao que já tem. O hotel tem que ser novo ou passado por reforma recente, o carro do transfer não pode ter mais de dois anos, os lençóis têm de ser impecáveis. Caso contrário é um choque.

iG: Então o brasileiro é um dos clientes mais difíceis de agradar?
Perez:
Não como o russo ou o chinês, que trazem problemas mais ligados à cultura. Mas o brasileiro tem uma expectativa maior.

iG: O Brasil está preparado para receber o público de luxo estrangeiro?
Perez:
Definitivamente, não. Nosso maior problema está na mão de obra. Não podemos pensar apenas em ter um transfer de qualidade, mas ter guias especializados, cardápios em inglês (não essas traduções ao pé da letra, feitas pela internet), taxistas e atendentes que possam entender e orientar o cliente. No Nordeste, por exemplo, é muito difícil encontrar isso. Esse treinamento, essa preocupação com o turismo tem de partir da base do governo. Em países como México, França, Austrália e Chile, entre outros, trabalhar no turismo não é bico, é profissão. O governo Lula tentou expandir esse mercado, mas ainda tem muito turista de fronteira e de negócios. É preciso medir o que ele usa de estrutura e o que deixa de valor. O turista de luxo deixa muito mais valor agregado e menos lixo.

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Jantar na Muralha da China é uma das experiências possíveis
iG: Mas não temos nenhum hotel que você indicaria para um cliente estrangeiro acostumado aos grandes palácios da Europa?
Perez:
O Kiaroa (Maraú - BA), o Ponta dos Ganchos (em Santa Catarina), e a Fazenda São Francisco, de Corumbau (BA), têm um serviço muito bom, mas nada parecido com o Singita – hotel dentro de uma reserva africana -, por exemplo. Temos cenários lindos a serem explorados em todo o Brasil, mas não é possível garantir o serviço. Podemos oferecer um luxo de experiência, mas com simplicidade e rusticidade, como o que você encontra em Paraty, mas isso não é luxo puro. É preciso sempre preparar a expectativa do cliente.

iG: Esse turismo de luxo de experiência está crescendo?
Perez:
Tem muita gente que sonha em passar uma noite em uma tenda no deserto, só ele e Deus, com as dunas e o céu estrelado, ou acompanhar a migração dos gnus no meio da savana africana, sem abrir mão de boa comida, vinho, cama confortável, banho quente. Dependendo da demanda do cliente, de sua disposição em gastar e do tempo disponível é possível fazer qualquer coisa. Já ouvi falar de uma suíte presidencial cuja diária custava US$ 20 mil que teve de ser toda pintada porque o hóspede não gostava da cor. Ele pagou não só pelas diárias, como pelos dias de serviço, mas teve o que queria para se sentir bem. Nós mesmos estamos organizando um jantar em plena Muralha da China, com todo requinte possível. Este é um mercado muito promissor. O que não falta é cliente, mas precisamos investir em treinamento antes.

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