Missoni traduz alma em cores

No Brasil para comemorar um ano de sua grife no País, Rosita Missoni fala sobre seu processo criativo e planos futuros

Juliana Bianchi, iG São Paulo |

Amana Salles/ Fotoarena
Rosita Missoni: simpatia, bom humor e muita energia em sua primeira vista ao Brasil
Prestes a completar 80 anos, Rosita Missoni decidiu se dar de presente uma viagem – ainda que rápida e com caráter de negócios – ao Brasil. “Quero visitar o Jardim Botânico. As flores são uma grande fonte de inspiração para mim. É fascinante o que podemos ver nelas”, disse a fundadora da grife que leva seu sobrenome, na tarde de ontem, esbanjando simpatia e bom humor, mesmo após uma série de compromissos que enchiam sua disputada agenda.

Afastada da direção criativa da marca desde 1997, quando a filha Angela assumiu suas funções no segmento de moda, ela continua ativa na decoração. “Tinha perdido o interesse pela moda e buscava uma vida mais tranquila, mas a casa ainda me trazia grande prazer”, conta Rosita. “Decidi, então, assumir essa área, que já existia, mas tinha um foco mais comercial, e deixá-la alinhada com a moda”, completa.

Em 2003, a Missoni relançou sua coleção de móveis e acessórios de decoração causando grande alvoroço. Agora, planeja expandir os negócios – que já conta até mesmo com uma rede de hotéis - para a área de jardinagem. “Sempre crescemos olhando ao nosso redor”, afirma Wanda Jelmini, sobrinha de Rosita e diretora criativa do segmento Casa.

Responsável por tornar as inspirações e ideias da tia realidade, é ela também quem se encarrega de responder sobre questões práticas, como o interesse em criar processos sustentáveis dentro da empresa. “Ainda não encontramos uma forma realmente boa para tingir fios com componentes naturais sem perder em qualidade”, afirma. Mas enquanto não encontra uma saída satisfatória, ela trabalha para garantir a sustentabilidade de seu microcosmo, mantendo toda a produção na Itália. “É uma outra forma de enxergar esse conceito. Garantir empregos locais também é uma maneira de contribuir para o bem do planeta”, finaliza, passando novamente a palavra à senhora Missoni.

iG Luxo: Como é ter uma empresa familiar em tempos de grandes conglomerados de luxo?
Rosita Missoni:
Essa é a parte mais difícil, mas temos sorte com isso também, porque todos quiseram se envolver no negócio. Meus filhos, meus irmãos, que cuidam da produção da linha Casa, minha sobrinha Wanda, que é a diretora criativa desse segmento. Todos trabalham muito juntos e têm as mesmas raízes e paixões por tecidos e cores. Então fica mais fácil falar com eles e seguir o mesmo estilo. Quando se fala de grandes empresas, só se que saber de números. Nós também trabalhamos para isso, mas sem perder o foco na qualidade e na alma dos produtos.

Amana Salles/Fotoarena
Pulseira de berloques da nova coleção Missoni usada por Rosita
iG Luxo: Missoni nasceu como uma grife de roupas. Hoje possui linha de óculos, perfumes, decoração e hotel. Qual o próximo passo?
Rosita Missoni:
Gostamos de olhar ao redor. Da mesma forma que a moda nos abre inúmeras possibilidades – no início do ano a marca lançou sua primeira coleção de bolsas e começa a arriscar passos na direção das bijuterias e joias (durante a entrevista Rosita usava uma pulseira de berloques que deve chegar ao Brasil em 2011) -, a área de decoração e design também nos permite muitas coisas, como criar peças para o jardim, por exemplo. Quero muito investir nessa área, ainda mais agora, com os hotéis.

iG Luxo: E como estão esses projetos hoteleiros?
Rosita Missoni:
A hospitalidade sempre foi uma característica de nossa família. Nossas festas sempre foram muito animadas e os almoços de domingo muito esperados pelos amigos. Então, quando a rede Reizor nos procurou, há cinco anos, ficamos muito felizes. Abrimos o primeiro hotel em Edimburgo, no Reino Unido, em 2009, e estamos prestes a inaugurar outro em Omã. Em 2013 deverá ser a vez do Brasil (na Ilha de Cajaíba, no Sul da Bahia) . Ainda não vi o lugar, só no mapa e em fotos, mas tenho que ir lá logo para me inspirar na decoração. Se bem que, no Brasil, há inspiração em todos os lugares.

iG Luxo: Como é o processo criativo da marca?
Rosita Missoni:
Para mim, a cor sempre foi indispensável. Tive sorte de casar com um atleta-artista – Ottávio, hoje com 90 anos, participou das Olimpíadas de 1948, em Londres, na modalidade 400 metros com barreiras – , que tem uma forma de colocar três ou quatro cores juntas que fica lindo. Quando ele cria com os pincéis parece que está escrevendo uma partitura musical. É sua forma de interpretar a cor. Hoje, compartilho com minha sobrinha Wanda, o prazer de andar pelo bosque, de ver os musgos, as flores. Já vejo tudo em ziguezagues, quadradinhos, listras. Depois ela traduz esses momentos em tecidos de maneira surpreendente.

iG Luxo: O que vem primeiro, as cores, os tecidos ou os desenhos?
Rosita Missoni:
O tecido é sempre o ponto de chegada. Às vezes a cor e o desenho são que o determinam. Mas é incrível como um desenho que começou em numa cortina logo vai parar em um prato, ou um jacquard acaba ficando ainda melhor em estampa. As coisas vão acontecendo.

iG Luxo: O que é luxo para a senhora?
Rosita Missoni:
É ter um galinheiro e horta no fundo de casa, para poder ter ovos e verduras sempre frescos para minha família. E claro, ter alguém para alimentar as aves e tratar das plantas, porque eu amo ter isso por perto, mas não tenho tempo de cuidar. Viver no campo é um verdadeiro luxo.

Amana Salles/Fotoarena
Rosita tem a simplicidade e elegância como conceito de vida
iG Luxo: De tempos em tempos vocês lançam edições limitadas...
Rosita Missoni:
As edições limitadas são muito exclusivas porque são numeradas e nem todos podem pagar por elas. Ter uma peça dessas já é algo muito especial, que te faz sentir única. Eu mesma, quando quero me dar um presente, vou à feira-livre. Mesmo lá você encontra produtos diferenciados, feitos em pequena quantidade e que são, claro, muito mais caros do que os outros.

iG Luxo: Mas é possível ter um Missoni totalmente exclusivo, com uma estampa, cor ou modelagem únicos?
Rosita Missoni:
Infelizmente, não. No hotel que vamos abrir em Omã vamos ter um salão de baile de 800 m² voltado a eventos e casamentos e lá eles nos solicitaram esse tipo de serviço, se poderíamos fazer peças especiais como copos ou vestidos de noiva personalizados. Mas isso é cada vez menos possível. Talvez possamos fazer o design dos bolos (risos).

iG Luxo: Vocês já customizaram o interior de um carro para a Fiat e agora criaram uma capa e um rótulo especial para a água San Pellegrino. Têm interesse em ampliar esse mercado?
Rosita Missoni:
Essas são ações mais promocionais para a marca do que um negócio. Meu filho Lucca tem um avião com uma de nossas estampas pintada na fuselagem, mas por enquanto é só uma brincadeira. Quem sabe, um dia, conseguiremos desenhar um carro tão incrível que as pessoas não poderão viver sem.

iG Luxo: Aos 79 anos, a senhora continua viajando o mundo para promover a marca, enquanto seu marido fica em casa. Como ele vê isso?
Rosita Missoni:
Quando digo que vou viajar novamente ele pensa onde arranjo tanta energia e sorri, porque sabe que é o que gosto de fazer. Ele tem muito orgulho de mim, mostra todas as revistas em que apareço aos amigos. Mas prefere, cada vez mais, ficar em casa.

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