Quem anda pelo shopping Cidade Jardim, em São Paulo, tem a impressão de que o local, aberto há quatro anos, acabou de ser inaugurado. Intercalados com vitrines de grandes marcas de luxo como Rolex, Hermès, Pucci, Jimmy Choo, Carolina Herrera e Petrossian, diversos tapumes indicam a chegada de novas grifes ou a ampliação de outras que talvez ainda estivessem cautelosas com o mercado brasileiro. Enquanto isso, do outro lado do rio Pinheiros, mais um centro de consumo ganha os últimos retoques para abrir suas portas, no início de abril, com marcas como Lanvin, Goyard, Topshop, Sephora, Tory Burch e Coach, para citar algumas das confirmadas a debutar no cenário nacional, no shopping Iguatemi JK.
Perspectiva do novo shopping Iguatemi JK, com inauguração prevista para abril
“O Brasil se posiciona como uma das grandes possibilidades mundiais no segmento do Luxo”, afirma Carlos Ferreirinha, presidente da MCF Consultoria e Conhecimento. “Com a crise internacional, as grandes operações de Luxo se voltam ao País, que tem conquistado expressivos números de crescimento, com a expectativa de evolução do mercado nacional na ordem de 20% ao ano, nos próximos cinco anos”, completa o especialista.
Um dos resultados mais recentes desse superaquecimento é a antecipação em um ano do plano de expansão do shopping Cidade Jardim, que possibilitará a abertura da nova loja-matriz da Daslu, no dia 7 de fevereiro, com direito a show de Seu Jorge e desfile de moda. “Teremos tudo o que tínhamos na Villa, mas com espírito mais moderno”, explica Patrícia Cavalcanti, diretora de marketing da marca, referindo-se ao prédio em estilo neoclássico que marcou o crescimento da grife em 2005, e que agora, sob a administração da WTorre, poderá se transformar em complexo de lazer.
Com jardim suspenso, pé direito duplo e entrada privativa pela garagem, o novo espaço de 3,5 mil m² – entre o terceiro e o quarto andar – concentrará todas as linhas, inclusive a de alta costura, agora assinada por Marcelo Quadros. “Continuaremos com algumas operações menores de marcas brasileiras e internacionais, mas o foco agora é nossa própria marca”, afirma Patrícia, incluindo aí a loja no Iguatemi JK. Vale lembrar que muitas das grifes hoje com operações próprias no Brasil tiveram sua porta de entrada pela loja fundada por Eliana Tranchesi.
Nos quase 2 mil m² deixados para trás pela Daslu surgirá, até abril, um novo corredor de alto luxo onde serão instaladas lojas Cartier, Fendi e Tod’s, as duas últimas desembarcando pela primeira vez no Brasil com operações próprias. Ficarão ali também as novas Chanel e Salvatore Ferragamo, ampliadas.
A Prada – que estreou no País no fim de dezembro sem fazer muito barulho, mas não sem surpreender os vendedores com a rápida redução dos estoques – também ganhará mais área expositiva em breve. Assim como Longchamp, Chanel e Louis Vuitton, que terá no shopping do grupo JHSF sua primeira global store da América Latina, com 1.200 m² e arquitetura supervisionada por Peter Marino. Além disso, a loja será pioneira na instalação de um espaço para personalização de bolsas. O conceito, batizado "haute marroquinerie" permitirá a escolha do couro, das cores (entre 30 opções), do forro e até das peças metálicas de alguns modelos pré-estabelecidos como Noé e Lockit, por exemplo. Cada exemplar customizado sairá ente 5 mil e 8 mil euros (R$ 11.422 a R$ 18.275), valor que pode aumentar se se optar por couro de crocodilo.
Um dos modelos ícone da Louis Vuitton, a bolsa Lockit poderá ser customizada na nova global store de São Paulo
“Até o fim do ano teremos praticamente uma inauguração por mês”, afirma Ana Auriemo Magalhães, diretora de desenvolvimento e planejamento de mix da JHSF. Ainda em fevereiro começa a funcionar ali a terceira operação da Gucci no Brasil. Em abril é a vez da Tag Heuer e da Balmain. Em outubro, da Miu-Miu. E, em dezembro, a segunda loja Dior em São Paulo desde 1999.
“Depois da decepção e prejuízo que eles sofreram ao ter de fechar a loja em apenas um mês (em 2005 eles abriram uma loja dentro da Villa Daslu apenas um mês antes da intervenção da Polícia Federal), foi preciso um tempo para se recuperarem”, explica Rosangela Lyra, diretora da grife no Brasil. “Daquela vez, eles não tiveram nenhum retorno, só problemas.”
Agora, entretanto, chegam determinados a recuperar o tempo perdido. A loja de quase 500 m² terá investimento em torno de R$ 11 milhões, com móveis desenhados pessoalmente por Bernard Arnault, presidente do grupo LVMH. “Será uma loja experiência, não só com prateleiras e araras”, adianta Rosangela, que ainda tenta convencer a matriz a incluir, nos planos de expansão, a vinda da linha masculina. “Existe muita demanda”, garante.
Segurem seus cartões de crédito
Tendo em vista que no mesmo período o shopping Iguatemi JK – que abre suas portas no início de abril – estará pouco a pouco inaugurando suas 210 lojas, entre elas as aguardadas Goyard, Lanvin e muitas outras grifes de renome que já estão presentes no País como Diane Von Furstenberg, Christian Louboutin, Botega Venetta, Gucci Masculina, Burberry, Carolina Herrera e Dolce & Gabbana, será preciso ficar muito atento à fatura do cartão de crédito para não estourar o limite até o fim do ano.
Afinal, segundo dados de estudo realizado pela MasterCard, entre os consumidores brasileiros de alta renda,isto é, aqueles responsáveis por 45% de toda a receita dos cartões de crédito, apenas 2% baseia suas decisões de compras apenas no preço. E, é fato que com a expansão da classe média vem atrelado um enorme desejo de acesso a bens de luxo, mesmo que pontualmente, como forma de indulgência e afirmação. Daí a grande aposta no maior crescimento do chamado luxo acessível, democrático, que visa o consumidor de menor poder aquisitivo.
Pontos para Topshop, Sephora, Coach, Lacoste L!VE e Tory Burch, que nessa disputa deverão sair na frente. “Essas não são operações genuínas de luxo e se posicionam internacionalmente em ‘midscale’, não atingindo o topo da pirâmide. Mas, no Brasil, o consumidor tem uma percepção diferenciada, conferindo a estas marcas a aura de premium”, explica Ferreirinha. Prova disso é o entusiasmo da designer americana Tory Burch com a abertura de sua primeira loja no País. “Acreditamos que há grande oportunidade de negócios para nós no Brasil, um dos mercados de maior crescimento econômico no mundo. Além disso, já temos uma grande base de clientes brasileiros nos Estados Unidos e internacionalmente”, afirma Tory, que confessa ter, há muito tempo, um interesse pessoal na “fantástica” cultura e espírito nacionais.
De acordo com pesquisa realizada pelo Instituto Francês de Opinião Pública (Ifop), em parceria com a MCF Consultoria e Conhecimento, atualmente, 75% dos consumidores de bens e serviços de luxo no Brasil contam com renda mensal entre R$ 4.500 e R$ 10.000. O que torna possível o tíquete médio de um shopping como o Cidade Jardim, ser de R$ 1.500, pouco acima do encontrado na Daslu.
“O consumidor brasileiro surpreende por seu impulso de consumo”, diz Ferreirinha, que vê na rápida expansão das operações internacionais uma resposta ao retorno acelerado que estão tendo por aqui. Daí ver grifes como Tod’s, Miu Miu e Botega Venetta já chegarem com planos de ter ao menos duas lojas em São Paulo, em 2012. Assim como Gucci, que em 2009 abriu sua primeira loja no shopping Iguatemi Faria Lima, e até o fim do ano deverá contar com três pontos de venda na cidade, entre eles sua primeira loja inteiramente dedicada à moda masculina.
Longe da marginal do Pinheiros
Se a necessidade de se marcar presença nos principais shoppings de luxo próximos à marginal do rio Pinheiros é real – a opção por apenas um ou outro ponto pode resultar em oportunidades de vendas perdidas –, outros centros estabelecidos de comércio em São Paulo também não podem ser ignorados. Reforçando a onda dos locais fechados, que oferecem maior conforto e segurança, o grupo JHSF deverá lançar, em 2013, seu conceito de “Shops”, uma versão minimalista de shopping center.
O empreendimento, avaliado em R$ 80 milhões ocupará uma área de 7 mil m² (para comparação, o Iguatemi JK terá 116 mil m² e investimento de R$ 322,3 milhões), com arquitetura de Marcio Kogan, entre as ruas Haddock Lobo e Vitório Fasano,onde ficava o antigo restaurante Fasano. Marcas como Salvatore Ferragamo, Pucci, Jimmy Choo e Carolina Herrera já apontaram interesse em invadir os cinco pisos previstos com vista para a rua. “Será um empreendimento maravilhosos para quem trabalha e mora na região”, garante Rosangela Lyra, que também é presidente da Associação dos Lojistas da Oscar Freire.
Perspectiva do Cidade Jardim Shops Jardins, com projeto assinado por Marcio Kogan
É também pensando na garantia de público – e retorno rápido – que as grandes marcas começam a olhar para novas concentrações de renda pré-estabelecidas e ainda pouco exploradas. Caso do shopping Pátio Higienópolis, no bairro de mesmo nome, onde no fim do ano foram inauguradas lojas Carolina Herrera, Burberry e Kiehl’s. “São Paulo ainda é uma cidade carente de espaços”, lembra Ferreirinha. Talvez esse seja motivo perfeito para que o mercado de luxo possa se expandir para outras capitais brasileiras nos próximos anos, onde sua presença ainda é muito tímida.
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