Artesãos de óculos de casco de tartaruga se adaptam aos novos tempos

Uso de novos materiais e customização das peças é forma de manter-se no negócio

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A maison Bonnet atende apenas com hora marcada

O que Yves Saint Laurent, Jackie Kennedy e o arquiteto Le Corbusier tinham em comum? Pelo menos suas armações de óculos, fabricadas pelo artesão francês especialista em armações feitas com casco de tartaruga Bonnet. 

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Quatro décadas depois do comércio de casco de tartaruga ser proibido pela convenção de CITES de 1973, a quarta geração da família Bonnet se vê como detentora de um raro conhecimento, fabricando incríveis armações sob medida a partir de um estoque formado antes da proibição.

Bonnet descreve seus clientes, entre eles Audrey Hepburn, Maria Callas e os presidentes François Mitterrand e Jacques Chirac, como estetas, mais preocupados com o estilo atemporal do que com a moda.

Christian Bonnet, que aprendeu o trabalho com seu pai e avô, detém o título de "maitre d'art", concedido pelo ministério da cultura francês para mais de 100 artesãos de todo o país. Comandada hoje por Christian e seus filhos Franck e Steven, a marca Bonnet fabrica cerca de 100 pares de armações de tartaruga por ano e vende por preços que variam de 3.500 a 30.000 euros. "Meu pai não queria que eu trabalhasse com isso, por causa do problema com o suprimento de casco de tartaruga", advindo principalmente do casco da espécie de tartaruga hawksbill, disse Franck Bonnet em entrevista à AFP.

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São necessários 12 gramas de casco de tartaruga para fabricar um par de óculos, e a marca diz usar de dois a três quilos do material por ano. A marca foi considerada parte do patrimônio nacional francês em 2007, mas Bonnet não diz o tamanho de seu estoque, embora afirme que o suprimento é limitado. "É inconcebível que nós nunca mais pescaremos uma tartaruga" diz Bonnet, de 41 anos, que se considera um ambientalista. Então decidimos há alguns anos que era hora de olhar para o futuro - e para um mercado maior.

"Para meu pai, meu avô e meu bisavô antes deles, era casco de tartaruga, casco de tartaruga, apenas casco de tartaruga. Eu disse para meu pai: 'Você é o último artesão de casco de tartaruga, mas é também o último artesão de armações de óculos feitas manualmente. Se nós pudéssemos apenas usar um material mais fácil e disponível, será que poderia manter nossa arte viva?'"

Foi assim que, desde 2008, Bonnet começou a utilizar o chifre de búfalo, baixando a média de preço para 1.200 euros e 1.500 euros. Se fabricada em acetato, a armação fica entre 850 e 1.150 euros.

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Cascos de tartaruga à parte, a uma dúzia de funcionários da marca, que tem uma loja em Paris, mas fabrica em Sens, há poucas horas ao sudeste da capital, produz hoje cerca de 700 pares usando novos materiais. O próximo passo para ampliar o portfólio da marca é embarcar na customização, permitindo que o cliente mude o tamanho e a cor de modelos básicos.

Franck Bonnet diz que ama observar os turistas japoneses inspecionando seus produtos e pensa na abertura de uma loja em Tóquio. "Eles vêem cada detalhe. Você sabe que não se esforçou tanto à toa!"

Bonnet foi envolvido em uma polêmica recentemente quando uma famosa jornalista, Audrey Pulvar, então em uma relação com um ministro socialista, foi criticada por usar uma par de seus óculos com um preço altíssimo. "Não foram 12.000 euros, não foram 15.000 ou 18.000 euros!" (como mostraram as manchetes), queixou-se Bonnet em entrevista à AFP. "Cinco mil é o mais próximo".

"É verdade que era caro", admitiu Bonnet. "Mas nós artesãos não somos milionários, esse tipo de trabalho manual consome extremamente nosso tempo". Fazer óculos sob medida significa estudar a face em cada detalhe minucioso. "O quanto suas orelhas são altas, a forma do seu nariz, tudo tem uma incidência sobre a inclinação das lentes, e portanto sobre a forma como você se vê", explicou. E tudo isso antes dos vários passos de moldar e polir a armação.

"Você pode passar um período ensandecido de tempo em um par de óculos, refazendo então duas, três vezes para que consiga fazer perfeitamente. O que custa dinheiro não é o marketing, é o que acontece no nariz do cliente!"

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